quarta-feira, 22 de agosto de 2012

 
hoje voltarei ao hábito álcool dos horizontes...
acordar a decadência em forma de corpos e montes.
retornar...
retroceder à pureza dos excessos e à minha origem...
regressar ao objecto que deveria estar no seu lugar...
voltar ao receio e à ternura,
entre tantos amo-te em ruínas...
que estranho monstro me sou nas bússolas cinzentas e dourados compassos sobre montanhas e mundos...
e medos...
e pronunciar-te a minúcia... cada teu pormenor em forma de gomo, em gesto de lua...
hoje,
regressarei ao hábito álcool dos horizontes...
os corações explodem pedaços...
muitos...
aos montes...
restam-me apenas as cedências dos cordeis que os prendem aos pântanos e aos nenúfares dos fáceis sonhos aquáticos...
amo-te debaixo das águas azuis de todas as superfícies difíceis...
sem fôlego,
porque dos pulmões já não nascem brisas, nunca imaginaste os ventos e a dimensão demorada de me permanecer ainda vivo...
se eu me deitasse aqui, entenderias a perfeição do chão por onde me encontro ou a indiferença do mesmo sonho?...
amo-te das túlipas às águas plúmbeas de um coração de coral...
ainda saberás que eu respiro?...
ainda te lembras que sou real??...
não me dês absolutamente mais nada,
senão a parte de ti que desconheço...

 
 
 


quinta-feira, 16 de agosto de 2012


photo by: bruno sequeira


riscar... riscar... riscar...
sem nada dizer...
é uma qualquer espécie de silêncio...
não é ter medo, não é ter razão nem método...
custa-me o glaciar da pele e o gelo sobreaquecido da ferida que não me cura...
venho dos fiordes estranhos das avalanches sobre biombos e sorrisos...
depois,
as montanhas mágicas e caminhos de tantos impossíveis...
guardo o olhar... guardo espaço por espaço e o retorno devagar quando fecho os mesmos olhos de todas as ruas onde me quero ficar... guardo...
guardo quase sempre as lágrimas no meu lugar permanente,
onde sem opções,
resistem em locais de cinzas que sempre souberam ficar...
só eu me lembraria de ferir a outra parte do meu não corpo...
amo-te demasiadamente fácil em conversas curtas que formam línguas e marés...
amo-te demasiadamente...
que é o mesmíssimo dizer: tão poucamente difícil!...
que oceano longo de tanto te guardar...
desato-te... desprendo-te... desamo-te...
afundo-me... naufrago-me... amo-te!...
agendar todas as águas e as caravelas de todas as flores em precipícios, e escutar no som da noite, voláteis silêncios das corujas como palavras em forma de sono e cascatas e ternuras...
as rochas destas falésias, têm a mesma dimensão deste curso de água em que te amo às mesmas proporções de todas as suas alturas...
vulcânico e estranho pranto...
só a minha lágrima e o nosso mar
se demoram tanto!...
she - photo by joão nuno cruz


se eu fosse capaz de lavar os ventos
e andar os dias de todas as chuvas
e estar pronto sem nada esperar,
talvez pudesse ter medo das minhas nuvens,
estender as mãos e cicatrizar expressões e só querer
que as feridas surgissem depois...
só eu me imaginei longe desta nítida cremação e
distante desta iluminura como parede em abandono e dar
à luz todas as espessuras sem nenhuma paixão,
perceber a mordedura dos beijos...
surpreender é o sofrimento das monções e manchar as memórias
inocentes na única dificuldade de expressar que nos serão tão fatais...
nunca amanheci o desencontro diluído, este meu lado de noites carnívoras...
nunca pensei que conseguisse ser tão triste...
o silêncio amputar-me-á o esquecimento cúmplice à deriva,
desde a mentira inverosímel da memória à verdade absoluta do medo...
e nas escadarias sumptuosas da minha morte,
lançarem sobre mim todas essas notas musicais...
e depois,
depois que um pouco mais que a tristeza,
essas flores de tão extraordinários funerais...


" a tristeza de estar sozinho dentro de um quarto, no adiantado da hora,
não é a solidão em si, é o desespero das sombras que não se mexem... "
marcelo soriano

" é em meus silêncios que as palavras se libertam da gaiola que sou "
marcelo soriano